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O continente africano, durante décadas visto apenas sob a ótica da ajuda humanitária ou da exploração rudimentar, porém agora ele está se tornando o epicentro da disputa por hegemonia na Nova Ordem Mundial. Nesse contexto, o que estamos presenciando não é apenas uma busca por recursos, mas um redesenho completo das zonas de influência globais.
Enquanto o Ocidente recalibra suas prioridades, a China e a Rússia consolidam uma aliança estratégica que utiliza ferramentas distintas, porém complementares, para dominar o Sul Global.
A Estratégia da China: O Poder do Hardware e a Diplomacia do Crédito
Em primeiro lugar, é fundamental entender que a China atua como a grande “construtora” da modernidade africana. Através da Rota da Seda Digital (Digital Silk Road), Pequim deixou de focar apenas em estradas de asfalto para focar em rodovias de dados. Além disso, ao implementar redes 5G, data centers e centros de monitoramento em países como Nigéria e Quênia, a China não está apenas vendendo equipamentos; ela está estabelecendo os padrões tecnológicos que regerão o continente pelas próxims décadas.
Dessa maneira, cria-se uma dependência estrutural. Ao oferecer crédito para grandes obras de infraestrutura sem as exigências políticas ou sociais comuns ao FMI, a China torna-se o parceiro preferencial de governos que buscam crescimento acelerado.
Essa “diplomacia do crédito” frequentemente resulta no controle chinês sobre ativos estratégicos, como portos e minas de minerais críticos (Lítio e Cobalto), essenciais para a transição energética global.
A Estratégia da Rússia: Segurança Privada e Diplomacia de Defesa
Por outro lado, a abordagem russa é marcadamente diferente e foca no vácuo de segurança deixado pelas potências ocidentais. Através do chamado Africa Corps (sucessor das operações do grupo Wagner), Moscou posiciona-se como o “fiador da sobrevivência” de diversos regimes africanos.
Nesse sentido, em troca de proteção militar, treinamento de elite e inteligência contra insurgências, a Rússia garante concessões valiosas em minas de ouro e diamantes, fundamentais para sustentar sua economia sob sanções.
Além disso, a influência russa expande-se para o setor de energia nuclear civil com a estatal Rosatom. Consequentemente, ao assinar acordos para a construção de reatores em países como Egito e Etiópia, a Rússia amarra a matriz energética dessas nações à sua tecnologia e assistência técnica por ciclos que podem durar até 60 anos. Dessa forma, Moscou utiliza o setor de defesa e energia para quebrar o isolamento diplomático e garantir votos em fóruns internacionais como a ONU.
Por que isso impacta a B3?
Portanto, você pode se perguntar: “como essa movimentação entre Pequim, Moscou e a África afeta o meu operacional diário?”. A resposta reside na Macroeconomia e no Fluxo de Capitais.
- Controle de Preços de Commodities: Como a China controla cada vez mais a extração de minerais críticos na África, ela ganha poder de ditar o preço global. Nesse contexto, qualquer oscilação na demanda chinesa ou na estabilidade africana impacta diretamente as ações de mineradoras e siderúrgicas brasileiras, como a Vale (VALE3).
- Aceleração da Desdolarização: A China e a Rússia incentivam o comércio em moedas locais e no Yuan dentro do continente africano. Dessa maneira, o movimento de enfraquecimento do Dólar como moeda de reserva global ganha tração, o que aumenta a volatilidade cambial e o apetite ao risco em mercados emergentes como o Brasil.
- Fortalecimento do Bloco BRICS+: A África é o grande celeiro de novos aliados para o bloco. Em última análise, quanto mais forte o eixo China-Rússia na África, mais força o bloco BRICS+ ganha para negociar novas ordens econômicas, o que obriga o trader de elite a monitorar não apenas o gráfico, mas o tabuleiro geopolítico.
O Despertar do Sul Global
Em suma, o que vemos é o fim de uma era de influência unilateral do G7. A África tornou-se o laboratório de uma nova forma de poder, onde a infraestrutura chinesa e a segurança russa criam uma alternativa real ao modelo ocidental. Para quem opera no mercado financeiro, ignorar esses movimentos é o mesmo que operar de olhos vendados. Afinal o preço no gráfico é apenas o reflexo final de decisões tomadas nos gabinetes de Pequim e Moscou.
